A VIDA DA MUSA ANGELA BORGES

A Atleta conta todas as dificuldades enfrentadas e alegrias conquistadas ao longo de sua carreira

Por Redação em 07/01/2019 às 09:00:00

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RAIO-X:

 

Angela Aparecida Lessa Borges

33 anos, aquariana, Atleta Welness IFBB ELITE PRO, Modelo Fitness, Professora e Palestrante, Treinadora e Consultora Esportiva.

Bacharel em Administração de Empresas; Especialista em Gestão de Pessoas.

Bacharel em Educação Física;  Especialista em treinamento avançado para mulheres.

 

DO SONHO AO SUCESSO: A VIDA DA MUSA ANGELA BORGES

 

     Nasci no verão escaldante de 1985 em uma cidade no interior de Santa Catarina. Rio D'Oeste é ainda hoje uma cidade pequena, mas na época tinha menos de mil habitantes. Meus pais eram agricultores e nos anos seguintes a agricultura sofreu muito com as intemperes do tempo, meus pais decidiram então, morar em uma cidade próxima e tentar uma condição melhor de vida. Assim fomos para Blumenau, no vale do Itajaí, meu pai foi trabalhar de pedreiro, profissão que exerce ainda hoje. Minha mãe foi trabalhar de empregada doméstica e eu passei a ficar a maior parte do tempo aos cuidados da minha vó.  Morávamos em uma casa improvisada, feita com sobras de madeira, plástico e tijolos. Eram dois cômodos pequenos onde vivíamos em cinco pessoas. Os anos se passaram e na falta de televisão (risos) a família foi aumentando. Eu fui à primeira filha, mas logo vieram mais três irmãos e alguns anos depois a conta fechou em cinco.

   A vida para uma família grande no subúrbio de uma grande cidade é sempre um desafio.  Cada dia é uma vitória, a luta diária pela subsistência ensina muito. Faltava tudo, mas meus pais seguiam firmes com nossa educação, as roupas, sapatos, material escolar eram passados de um irmão para o outro e os brinquedos eram feitos por nós mesmos. Não tínhamos TV, videogame, telefone, etc. Estudamos sempre em escolas públicas, passávamos feriados, natal e ano novo em casa e em cada aniversário minha mãe fazia carinhosamente um bolo e meu pai comprava dois ou três pacotes de suco, era uma festa simples e especial que jamais vou esquecer.

    Quando eu tinha oito anos minha mãe foi atropelada por um ônibus e ficou no hospital por quase 60 dias. Ela nunca mais pode trabalhar e a vida que já era difícil, ficou ainda mais. Eu como a filha mais velha passei a ser a "mãe" dos meus irmãos mais novos, foram tempos muito difíceis, meu pai trabalhava em dois empregos e por várias vezes eu o vi chorando abraçado a minha mãe. Ainda posso ouvir as palavras dela, pedindo calma, rezando e falando que tudo iria melhorar.

    Os anos passaram, e assim que completei doze anos fui trabalhar em uma fábrica de produtos hospitalares, continuei estudando mas no período noturno. Eu que já era magrela, a "Olivia Palito" ou "Sarrafo" como era chamada pelos tios, primos e por toda a turma no colégio, trabalhando muito e dormindo pouco, fiquei ainda mais magra. Aos dezesseis anos eu pesava pouco mais de quarenta quilos. Isso sempre me incomodou muito e usava roupas largas para tentar disfarçar. Mudar isso se tornou um objetivo muito forte quando comecei a sair para as festas. Minhas amigas da mesma idade já tinham corpo de mulher, com pernas, glúteos e seios grandes. E eu, servia como a amiga que juntava os casais, mas que não namorava ninguém.

    Aos dezessete anos eu entrei no último ano do colegial, e no mês de maio, uma sexta-feira, uma amiga me chamou para ir a uma festa, lá conheci o Vander, e logo começamos a namorar. Ele, assim como eu, foi a festa para acompanhar um amigo. Alguns meses depois, estávamos morando juntos, em um quarto na minha casa, com os meus pais. Éramos nos dois, meus quatro irmãos, meu pai e minha mãe morando em uma casa de quatro cômodos. Foi lá que começamos nossa vida juntos, foi lá que sonhamos, planejamos e trabalhamos muito.

    O Vander já gostava de academia, era forte e com a sinceridade insana típica dele, certo dia me disse: "Você está com a bunda mole, tem que ir pra academia". Passada a raiva e a vontade de estrangular ele, lembrei-me de tudo o que já havia escutado durante minha infância por ser magra e foi nesse dia que me matriculei na academia. Nesse período eu trabalhava de auxiliar em uma clínica odontológica e no intervalo do almoço, saia correndo, andava duas quadras para chegar a academia, fazia meu treino, tomava banho, comia e voltava, tudo isso em uma hora e meia.  

    Em 2006 compramos nosso primeiro apartamento, um sonho realizado com muita luta. Era pequeno, 50m² e cada parcela paga era uma vitória. Em 2008, cinco anos depois de irmos morar juntos, economizando e guardando cada centavo que podíamos, fizemos nosso casamento na igreja, tudo do jeito que eu sonhei. Foi lindo e inesquecível.

    Segui treinando, trabalhando e estudando, e naquele ano terminamos o colegial e prestamos vestibular. No ano seguinte estávamos cursando administração, embora eu já fosse apaixonada pela Educação Física. Meu marido nessa época trabalha em um banco e foi transferido para uma cidade menor que fica a 100 km de Blumenau. Lá concluímos nossa graduação e fizemos nossa formatura juntos. Foi lá também que conheci na academia uma grande amiga, a Juliana. Ela já estava terminando a faculdade de educação física e treinava feito uma louca do jeito que eu gostava. Não demorou para nos tornarmos parceiras de treino, nossos maridos ficaram amigos e passávamos os finais de semana preparando marmitas para seguir firme na dieta durante a semana.  Não frequentávamos mais nenhuma festa, passávamos nosso tempo estudando, treinando e preparando comidas fitness. Foi por incentivo dela e do meu esposo que iniciei a faculdade de educação física, a essa altura eu já treinava a mais de oito anos sem falhar um treino e sem fugir da dieta, já havia ganhado mais de vinte quilos e em nada lembrava a menina magrela que fui à adolescência.

    Foram incontáveis as vezes em que tivemos de fazer escolhas difíceis para poder pagar a faculdade, comer, comprar um pote de proteína ou mesmo um tênis novo para treinar. Evitávamos ao máximo sair, economizávamos em tudo o que podíamos, continuávamos treinando, trabalhando e estudando. Grandes lições à vida me proporcionou com isso. Aprender a dar foco no que realmente importa, organização, disciplina e ser fiel a meu proposito sempre. É claro que por várias vezes pensei em desistir, hora pelas dores do treino, hora pela falta de dinheiro, hora pela simples duvida de estar ou não no caminho certo. Felizmente quando minhas forças pareciam acabar, lá estava meu marido para dar uma palavra certa, ou minha amiga Juliana e claro, minha própria consciência me lembrando das promessas que fiz a mim mesma.

    No final do ano de 2012 tive o primeiro contato com o fisiculturismo. Minha amiga Juliana me convidou para ir a um campeonato com ela. Ela competiu na categoria BodyFitness, campeonato que ela venceu inclusive. Nesse ano a categoria Wellness começava no cenário nacional e da plateia vi as atletas Wellness no palco com um físico muito semelhante ao meu na época.

    Mas jamais me passou pela cabeça competir. Eu, uma interiorana tímida, envergonhada, jamais subiria ao palco usando um biquíni, sem chance! Por meses ouvi meu marido, minha amiga e muitas outras pessoas me dizendo para competir e acabaram me vencendo pela insistência. No início do ano de 2013, estava marcado o campeonato estreante em Santa Catarina e faltando menos de 10 dias, resolvi me inscrever. Procurei então um treinador para me orientar, o professor Fabio, que por uma coincidência do destino era amigo do meu esposo a muitos anos.  Fomos até ele e suas palavras foram: "você está pronta!". Nossa, fiquei assustada. Acho que por conta dos meus medos, no fundo esperava ouvir que não deveria competir.

    Começamos do zero, aprender a andar de salto alto foi um desafio, e fazer isso usando biquíni em um palco com centenas de pessoas me olhando, dava pânico. Os dias que antecederam o campeonato eu ensaiei tanto que fiquei com os pés cheios de bolhas. Chega o dia da competição e minha vontade na verdade era de sumir. Quando entrei para o Backstage (lugar onde ficam os atletas antes de subir ao palco) e vi várias mulheres lindas, minhas pernas tremeram, era difícil ficar em pé com aquele salto enorme. Juro que só não fui embora por que para fazer isso eu precisaria passar pelo público, mas se houvesse outra porta eu teria saído.

    Começaram a chamar as atletas e de repente senti alguém me puxar para o palco e pronto, lá estava eu frente a frente com meus medos.  De biquíni, no palco e sendo julgada. Mas algo magico aconteceu naquele dia, o nervosismo foi embora e me vi consciente de cada movimento. Eu podia observar as pessoas me olhando, os árbitros fazendo anotações, a luz do flash das fotos, a voz do meu marido e até a música que tocava. A sensação foi inacreditável, e naquele momento me senti plena e realizada. Estava tão à vontade que comecei a balançar, quase que dançando ao ritmo da música que tocava. Para minha surpresa fui campeã, era inacreditável! Ao descer do palco, algo havia mudado em mim e eu sabia, que ser atleta e competir era sem dúvida o que eu iria fazer.

   Entrei de cabeça nesse mundo fitness e a essa altura já estava quase terminando minha graduação em Educação Física, participei de todos os campeonatos possíveis, sempre com muita dificuldade, viajei para várias cidades e países, fiz muitos amigos e parcerias que levo comigo até hoje. Uma coisa ficou ainda mais clara nesse processo, a certeza que ninguém cresce e vence sozinho. Sou grata aos muitos anjos da guarda que tornaram meu caminho mais doce nessa jornada. De lá para cá foram muitos por todo o Brasil, além disso, competi em mais de 10 países em cinco continentes. Cada competição trazia na bagagem de volta, aprendizado, histórias de superação, amizades e uma vontade imensa de seguir em frente.

   Passei por muitas aprovações, muitas dúvidas, dificuldades financeiras, e claro, as críticas. Estas sempre estavam presentes e cresciam exponencialmente à medida que eu obtinha sucesso no que fazia. Afastei-me de algumas pessoas, inclusive de alguns familiares, abandonei antigos hábitos e fiz da minha meta no esporte, a razão da minha vida.  Em mais de 40 competições apenas duas vezes não fui campeã. Claro, estas duas vezes em que não venci, aprendi mais sobre mim e sobre a vida do que em todas as outras em que o título foi meu.  São tantas histórias incríveis de momentos em que tudo parecia estar dando errado, mas a fé, a perseverança e uma boa dose de loucura, de alguma forma proporcionaram um desfecho lindo, melhor ainda do que eu poderia sonhar.

   Lembro como se fosse hoje, meu primeiro grande evento que foi o Arnold Classic Brasil 2014. Eu já havia ganhado alguns títulos menos expressivos no meu Estado e agora iria para o Rio de Janeiro em um grande evento internacional. Por meses, economizamos para pagar as passagens de avião, alugamos um pequeno apartamento que dividimos em seis pessoas para ficar mais em conta. Chegou o dia da viagem, da minha casa até o aeroporto eram três horas de carro, no caminho havia um acidente e ficamos parados por duas horas, resultado, perdemos o voo. Mesmo que conseguíssemos dinheiro para comprar outras passagens, o que seria bem difícil, não havia mais voos que chegassem a tempo para a competição. Nessa hora bateu o desespero e parecia que tudo estava perdido.

   Meu marido então propôs que fossemos de carro até o Rio. Estávamos com um casal de amigos em um carro pequeno, com quatro malas grandes. Foram quase quatorze horas na estrada, sem comida, com as malas sobre as pernas e torcendo para que nada mais desse errado. Lembro que as duas primeiras horas na estrada ficamos lamentando por perder o voo e o valor das passagens, e como as próximas horas de viagem seriam desconfortáveis. Lembro-me de uma frase que o Vander disse: "Temos duas opções, ou fazemos isso sorrindo ou fazemos chorando!", ficamos com a primeira opção. O mais incrível é que depois de tudo isso, voltei para casa campeã e de quebra com meu primeiro patrocínio.

   Poderia descrever aqui outras tantas situações, mas deixo apenas um último relato na esperança que inspire outras mulheres a seguirem firmes no seu propósito. Lembram-se da menina do interior, magrela que pesava pouco mais de 40 quilos e que era super tímida e envergonhada? Ela acabou de se tornar campeã mundial profissional em um campeonato que aconteceu do outro lado do mundo, lá na china, ela continua envergonhada e tímida, mas aprendeu a lidar com seus medos. O medo é importante, mas ele não pode nos paralisar e sim nos fazer permanecer sempre alerta.

   Qual será o próximo passo? Não sei bem ao certo, mas tenho certeza que, na minha vida, assim como na sua, só depende de nós, ser o que queremos ser. Não, não vai ser fácil, mas é possível e você vai se orgulhar de si mesma ao fim de tudo. Vamos lá realizar e fazer de 2019 o melhor ano de nossas vidas?

Por Angela Borges   

 

TÍTULOS DA LIGA PROFISSIONAL

Campeã Mundial Profissional 2018 (China)

Campeã PRO Sul Americana 2018 (Paraguai)

Campeã Caribe PRO Aruba 2018 (Aruba)

Campeã Diamond Cup Pro 2018 (Portugal)

Campeã Arnold África Pro 2018 (Johanesburgo)

Campeã Arnold Classic Pro internacional 2018 (São Paulo)

Campeã Goiânia Pro internacional - 2018 (Goiânia)

 

TÍTULOS DA LIGA AMADORA

Campeã Mundial 2017 - França.

Campeã Overall Mister Olympia South América 2017 (Colômbia)

3x campeã Sul Americana Overall Wellness 2015 Equador / 2016 Peru/ 2017 Argentina

4x campeã Overall Arnold Classic Brasil 2014, 2015, 2016 e 2017

4x campeã Brasileira Overall 2014, 2015, 2016, 2017

2x campeã Overall Sul Brasileira 2013 / 2014

 2x campeã Overall Catarinense 2013 / 2014

Campeã Estreantes Catarinense 2013